sonoite
Friday, September 29, 2006
Wednesday, September 27, 2006
Neblinas...

Quantas vezes encerramos vaga-lumes em copos com furinhos para vê-los piscar... ou o guardamos em nossas mãos... só para espiar aquele flerte eterno? Tentávamos capturar borboletas, besouros, tatu-bola, bolhas-de-sabão, joaninhas, lagartixas, cigarras, luas minguantes e a até mesmo fumaça e vapor. Deitávamos os olhos rente ao chão para ver coelhos roendo gramas verdes e saltitando desengonçados... para bem longe de nós. Ajudávamos até aranhas, mas nunca sentíamo-nos agradecidos. Testávamos inúmeras casas para tais criaturas... mas sempre falhavam. Tive até um caracol, desses com três anteninhas... verde e úmido... todo pomposo! Ele, ou melhor, ela se chamava Tita... e vivia em nosso minúsculo jardim, que era na verdade um balcãozinho forrado de terra e plantas descuidadas; uma verdadeira selva! De lá ela caiu e quebrou seu casco... que asco! Suas anteninhas se comprimiram e ela morreu... sabe-se lá por que era tão importante aquela casinhas... Nós erámos ingênuos, amávamos do jeito que dava... tudo o que queríamos era compartilhar a nossa casa... uma grande armadilha! Armadilha que evitamos aceitar até hoje. Como é possível, com tanto amor e apreço, tal incompatibilidade? Por que nos é tão difícil captar a dureza das coisas... e quão mais difícil ainda é capturar suas mudanças... Um vaga-lume não o é parado. Assim como uma neblina não é água... e nem água é água parada, um amor não está para o tempo... e nem o tempo está para nós. Mas que fazer se a vida transcorre e o amor fica? Guardá-lo numa caixinha?
Thursday, September 21, 2006
Hum...
Na grande maioria das vezes nós deixamos de fazer, falar e até mesmo olhar pelo simples fato de consideramos tal ação algo de injusto ou inadequado. Mas isso não significa que não gostaríamos de fazê-lo... mas somente que deixamos de agir por acreditar ou numa certa ordem natural das coisas humanas ou por entrever uma possível repreensão. Talvez seja por isso mesmo que certas pessoas levam vantagem sobre nós; por fazerem exatamente o que não se faria, isto é, o fazem por saberem que provávelmente ninguém teria tal liberdade e que ninguém se atreveria a repreendê-los, pois não o poderiam já que em última instância tal sujeito realizou aquilo que ninguém teria capacidade de fazer... mesmo que isso lhes prejudiquem. Sim, imaginemos o pior dos vilões... aquele que realizaria todos nossos desejos mais cruéis e que viveria apenas para realizá-los. Não teriam estes sujeitos uma grande função? Não seriam eles mesmos os defensores da liberdade? Não seriam eles quem nos fornece o conceito de humano? Sim, óbvio que sim, mas o que precisamente lhes pertecem que a nós nos é negado? Qual seria o fator determinante para estas realizações? Tais atribuições lhes garantem uma 'felicidade'? Hum... nosso desejo de sermos dignos para todo o sempre não seria uma contradição em termos? Sermos dignos ao passo de sermos desleais com nossos impulsos... Dignidade pela metade? Hum... Cadê aquele que me completa? Cadê aquele que me faz por inteiro e me dispensa das 'sujas' atribuições? O pior é que parece-me que tais 'sujeitos' sentem-se desprestigiados por nós e nós por eles... Sendo assim... vivemos, nós e eles, diminutos e imperfeitos... fazemos tudo às avessas; desejando o bem fazemos mal, implicando o bem tornamo-nos injustos... Embora possa parecer confuso essas invisíveis fronteiras, acredito ser de todo o necessário nos remontar a tais cisões, pois apenas assim nos serão garantidas as decisões e consequentemente as desculpas...
Wednesday, September 20, 2006
Hoje pude dormir cedo...

Hoje pude dormir cedo... não sabia ao certo se estava indisposto, já que faz alguns dias que sinto meu fígado saindo pela boca... ou se estava apenas cansado da montanha-russa dos meus horários. Acordar cedo, dormir cedo, dormir à tarde, dormir tarde, acordar de tarde... não dormir. Enfim, fui dormir às 10:15pm... algo raro se passava, pois não fiquei maquinando idéias por longas horas na cama; apenas capotei. Mas tive uns sonhos terríveis, desses que nos fazem parecer cachorro sonhando: respirando forte e cortadamente; bufava como baleia após horas em baixo d'água. Uma parte de meu sonho consistia na seguinte imagem: pessoas incertas e sem motivos jogavam ao chão pedaços - somente as patas de trás e a bunda com seu rabo cortado que as unia - dequeles cachorros minúsculos e bege. Sim, vários pedaços espalhados por toda a casa. Não busco nenhuma interpretação, mas sei que aquilo me pertubou; não pelos cachorros em si, mas por saber que pessoas o faziam... e não por serem pessoas, mas por estarem muito perto de mim... me rodeando. Acordei com muito sono e muito custo... mas era necessário. Tentei assistir televisão para diluir tais imagens da minha cabeça... nada resolve... só havia sangue transbordando pela tela. Não nos damos conta de quanto sangue-falso vemos todos os dias. Não sei se isso é ruim, afinal sentimo-nos instigados por tais acontecimentos... talvez faça parte de nossa qualidade contemplar a morte. O sangue é denso e exige muita habilidade. Faz alguns dias que não pára de ventar à noite... um vento robusto e assustador que martela a minha janela. Nunca gostei desses ventos que parecem multidões fugindo desconcertadas de alguma fera. Já não posso mais dormir... quando o sol vier; um par de horas me restam e sem os olhos para ler e o silêncio para romper... posso apenas escrever... e o cenho frazir. Lembrar de ana mendieta e me perguntar: o que faz o coração de uma vaca?
Monday, September 18, 2006
Um cadaver de poeta...
"De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
-E ardia sem conforto...
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
-Resta um poeta morto."
Saturday, September 16, 2006
Um banco
Passar cinco horas num mesmo banco, sentado como que esperando nada acontecer... Olhar distraídamente para o lado das pessoas que te olham e exclamam: Ainda está aí... desde aquela hora?! - Olhar para aquele infinito do pensamento e se perguntar: mas por quê um juízo estético é e deve ser um juízo reflexivo? - Sim, desinteressado... mas não poderia ser por isso mesmo objetivo? Se esparramar em pensamentos... conformidade a fins... conformidade a leis... arte e natureza. Um café cinzento acompanha minha mão... a fumaça aos olhos. O freunde, nicht diese Tone! Sentam-se pessoas em meu banco... conversam sobre tudo - sobre as bundas chatas, as moles, as caídas... conversamos sobre nossos passados e em nada concordamos. Olhamos para as bundas que passam corridas e damos meia volta para olhar a parede com suas manchas... tratávamos de tintas e maneiras de pintar as paredes... esquecíamos de novo qual era o assunto e uma ída ao banheiro. Um novo cigarro para um velho pulmão, e algumas palavras sobre saúde... mas nada conclusivo. Uma reclamação para quebrar o sol ardente e de novo conversavámos sobre o fígado. Uma porta aberta espreitáva-nos, dizia para nos afastar, pois era sua vez de passar... Uma boca antiga agora me falava: Alle Menschen werden Bruder... - "Não sei que aula vou dar no semestre que vem... talvez de Nietzsche", ou seja, de nada... Minha bunda doía... o banco vasado a expremia. Nenhuma resposta do celular. Um gato malhado dizia a si mesmo quando... "eu quero atravessar essa multidão, mas estou..." e no instante em que disse - morrendo de medo - retornou, com o mesmo assombro com que começou a atravessar as pessoas, para o seu lugarzinho tranquilo de solidão. É estranho, mas foi tanta encenação para aquela atravessia que tal ato pareceu-me natural. Às vezes sinto o mesmo quando tenho que encarar certas pessoas... vou correndo para meu fim... dizendo a mim mesmo - é, eu sei que você nada representa para mim, mas mesmo assim eu me... - e me calo diante dela. Seja por medo, seja por desprezo... eu nada sou ali, mas em meu banco eu posso. Posso dormir e acordar quando quero, posso encerrar o dia numa frase, posso viver apenas, sem mendigar às pombas uma companhia, sem pedir um instante para minhas palavras. Ali eu posso... dizer a mim: a ti e a ninguém mais.


