sonoite
Saturday, May 26, 2007
Ai que frio...
Ontem, no ônibus, na janela, no banco para deficientes, eu fiquei por uma hora e meia. À minha volta só havia pessoas. Tudo era curioso... uma indiscreta beleza. Um rapaz desenhava. Uma senhora bordava. Outra apenas desdenhava. Foi uma das primeiras vezes que não escutava música... Estava bastante cansado. Irritado até... mas gostei tanto de sentir tudo aquilo em pleno ruído que não parei para imaginar coisas, esperanças vãs ou sonhos ideais. Era um passado que principiava ali mesmo, um tempo imemorial; um passado sem música, sem arte, sem palavras... sem escrita. Um tempo que apenas acontece... um tempo que se passa ao tempo das passagens do ônibus.
Ao ver a mulher que bordava, senhora sã, sem calor e sem, é claro, deixa-la sentar em meu banco deficiente, meu banco espremido e baixo... percebi que ela bordava, em pé, o nome de algum filho ou sobrinho próximo numa toalhinha. O ônibus, porém, não parava de balançar sua tranqueira a disel e, eu, não parava de pensar: ah, quem foi que disse que os brasileiros tem mau gosto para escolher nomes? Hum... A cada topada que o ônibus dava o nome mudava. Antes era Ric... e Bu bum racos! O A mudara para H. Daí Rich... e o A recomeçava a ser bordado. Richa? -Hum... Ela devia ter pensado: Richa, mas que coisa?! - Então, num movimento criativo, ela olha para o nome escrito no crachá do cobrador... e venera seu lindo nome: Arlindo. Ah... Richarl ... lindo - pensava ela - não ficará bem. Melhor é Richarlison... ops liçom, lissom, lisson. Como escolher agora? Ah Richarlison, bem melhor do que ser moço homem com nome de garçom.
Quantos pontos errados... quantas voltas dadas: quantos nomes criados!
E o desenho? Ah, era o desenho daquelas duas mulheres que fofocavam alto na porta do ônibus. Os narizes da mentira já eram tão grandes que nem no papel do desenhista cabiam, mas, enfim, que fazer quando, num pulo homérico do ônibus, o lápis desce a página? Só resta continuar o desenho... com o mesmo desdém da mulher que fala suas mentiras familiares. Não que ela mentia, mas apenas dizia, torto, a mentira dos outros. Ah, quem foi que disse que Tarsila inventara um estilo, um paradigma da modernidade brasileira? Ah, mal sabem eles que ela desenhava em bondes... aos montes! Tal como esse meu colega. Desenhava nos pulos, ou melhor, nos pulos dos punhos. Desenhava sobre as mentiras - ah, e tudo em tiras de papel.
Hum... e eu. Escrevia aos olhos meus. Escrevia absorto sobre e, é claro, sob os erros. Erros soltos, erros de todos, erros do sol. "Havia, também, duas coisas que nunca me saíam da cabeça: a aurora e o recurso contra minha sentença. Não deixava, no entanto, de discutir comigo mesmo e tentava não pensar mais nisso. Estendia-me, olhava o céu, fazia um esforço para interessar-me por isso. O céu tornara-se verde, era noite. Voltava a me esforçar para mudar o rumo dos meus pensamentos. Escutava o meu coração. Não conseguia imaginar que este barulho que me acompanhava há tanto tempo pudesse um dia cessar. Nunca tive uma verdadeira imaginação"...
Tuesday, May 22, 2007
Sunday, May 13, 2007
Inverno...
Inverno, época de invernar! Seja com o vinho, com os gatos, com os cachorros, com as meias, com as luvas... seja com as comidas, seja com os amigos... seja com os amores: Inverno é época de entrar na cama e esquentar as juntas juntos!
Os psicólogos e a plebe...
Se eu dissesse: quando minto digo a verdade... todos se apressariam em dizer que a minha mentira expõe a verdade que permanece por baixo ou diriam que sou um tonto que não falo coisa com coisa. Eu, se tivesse que escolher, escolheria a segunda opção, pois é melhor deixar de entender do que entender demasiado! Os psicólogos afirmariam o contrário, não por método ou conhecimento de causa, mas por acreditarem que ninguém mente... inteiramente. Se eu minto para disfarçar alguma verdade, só eu, ou nem mesmo eu, saberei.... Se a mentira é para valer, todos nós saberemos. Agora, como entenderão se eu disser: a loucura não é o desapego ao outro nem ao todo, mas é o se desapegar ao todo outro de si?
Para cris
Pois é... Angustiante!
Augusto aquele que nunca chorou lágrimas vãs, que nunca pisou em ratos, que nunca bebeu demais... augusto aquele que nunca sentiu-se só... e de uma rua não muito augusta ligou para sua Martha??? (Martha - Tom Waits)
Pois é... a certeza angustiante de não mais viver... achando é mesmo a angústia de quem, nas despedidas-de-verão, decide não mais ser o que era antes...
Pois é... dias cinzas, dias ausêntes... dias que passam.
Muitos dias a passar... e nossas crises, já não maltratam... mais.
Como a lagarta para a borboleta: já foste uma crisálida, feia e disforme.
Como a borboleta para a lagarta: já foste uma baleia dos ares, bela e conforme.
Pois é... como nós e a dor angustiante
Nossas crises se revelam: ser outrora o que antes era.
Sunday, May 06, 2007
Ai de quem...
Doido
"O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia."
C. D. de Andrade
Ai, ai... como é bom falar onomatopeias.
Prosopopeia do viver!
Verdade alí e acolá. Justiça, memória divina,
poder de todos, no todo em nada sendo
para todos. Ai, ai... como 'murta', como dissimulação,
como esquecimento... Ai do aedo que cantar,
em inspiração do firmamento,
aquilo que não se escuta!!!
P.S. isto é para mim... desencanem de entender









