La abuela



É difícil falar de minha avó... mãe de meu pai. Talvez porque nunca tive uma dessas conversas que animam a tarde e ressoam à noite. Talvez, ainda, porque a vejo pouco; uma vez ao ano e, com tem sido o hábito, apenas no inverno quase rigoroso de Recreio - Argentina - o que dificulta qualquer diálogo, a não ser sobre o frio e sua sensação térmica... Talvez não seja possível falar dela em português, uma vez que o castellano me é tão antigo que só de pronunciar algumas de suas palavras sinto o cheiro já em minha língua daquela terra preta... daquele imenso pântano. Não sei, mas falar dela é como ter de falar necessáriamente de sua casa e daquele ritmo... Talvez... talvez não. Ela, tão... sim, velha. Velha e agora caolha, pois perdera a vista de um olho na última vez em que veio a São Paulo, isso há uns 6 anos. Ahh... sua casa, sim tão alheia à nós. Por quê falo dela? bem, por quê você não falaria de alguém? Há sempre algo a se falar... e falar de alguém não é, para mim, revelar alguma máxima da vida... é como... como perguntar: Como está o frio lá fora? e responder: Venta... venta frio. Já sei, já se sabe... se perguntar por quê falaria de alguém é o mesmo que se perguntar por quê alguém pergunta o que já sabe? Saber que faz frio e que venta lá fora, não muda a razão da pergunta: Você, assim como eu, sente frio? - Sim vó, é eu também sinto frio... É, não importa quão frio sentimos, mas se sentimos. Sei que ela nunca foi uma boa cozinheira e nem gosta de cozinhar... Sei que ela não cozinha por gosto, pois o gosto era apenas ver seu falecido amor cozinhar... Sei que ela nunca toma seu café da manhã, pois o 'mate', o chimarrão, é a única lembrança necessária para se despertar. Sei também que ela sempre dorme após o almoço, pois, mesmo que não se durma, é sempre bom estar com o travesseiro, como se devesse sempre rezar à tarde para seu tranquilo sono à noite. Mas vó, você não sente saudade? Você não sente fome? Mas... você não sente sono? Ah, como seria estranho perguntar: Mas vó, você também não desistiu de viver? Mas vó, por quê você nunca mudou a casa desde que meu avô morreu, não mudou um bibelô sequer, nem as novas coisas você faz questão de mudar... por quê? Até os estranhos milhos que ela deixa num desses patos de madeira continuam lá, já sem alguns milhos, óbviamente debulhados por mim... Até os cachorros já se foram... até os novos vinhos envelheceram, até o novo pinheiro já se apagou na lareira... Mas vó, agora você irá morar numa casa no centro de Santa Fé... Seus novos vizinhos de Recreio já nem poderão falar contigo... já não estarão lá para trocar seus 100 pesos pagos pela carne de 5. Até o Liceo Militar Gral. Belgrano já não poderá dar-te pinhas no inverno... O que será de ti? Pergunto, pois não sei o que será de mim.
- Hace mucho frío afuera, no salgas sin alguna campera... Abrigate negrito. Mis manos ya están frías.


