- Mas pára com isso... para quê gritar contra aqueles que sequer podem ouvi-lo?
- Não grito para que me escutem. Você sempre pressupõe coisas... por quê?
- É... então por quê grita? Eu só achei que se alguém reclama, reclama algo para si, não é?
- Sim, mas só as pessoas que ainda creem muito nos outros. Já eu...
- Que ardil besta... sim, você não acredita no que diz. Então me diga, por quê tenho medo dos seus gritos... se não posso convencê-lo de que gritar é algo, então posso extrair uma resposta mudando o lado.
- Não... nem assim. Não é ardil... você apenas tem medo de ser reprovado, tem medo das respostas, não que elas irão te prejudicar, mas...
- Mas eu sempre te pergunto coisas e você nunca as responde! Você é que tem medo de responder.
- Como eu disse; não acredito no que digo, por quê vou temer em responder algo que amanhã já nem mais lembrarei?
- Por quê diz então?
- Sabe, como aquele personagem da peste, eu me dou bem entre os sitiados. Qualquer coisa que nos faz viver é bem vindo.
- Então? ... você fala para se distrair? e para seguir vivendo, mesmo na incerteza das coisas... não?
- Não, apenas devo dizer... é assim. Não sou eu que, na realidade, digo as coisas... é como se... falar em tempos de sítio é um modo de vivermos juntos... falamos apenas, falamos demais. Desejo mudar muitas coisas, mas preciso primeiro gritar qual os outros.
- Não entendo. Não sou mais jovem para ser intimidado. Me diga, se não se pode falar por si, quero dizer, se não se pode falar do meu próprio jeito, que diferença então esse teu modo cumum irá ter?
- Se você fala do seu próprio jeito você grita. Se você fala como os outros você é escutado.
- Mas do que você está falando? O quê é esse seu 'como os outros'?
- Por exemplo, numa ópera onde todos falam juntos, mas dizem coisas diversas... você consegue entender, não? O problema é quando todos falam, cada qual em seu momento e dizem a mesma coisa... aí ninguém se entende. Por isso falamos... A um só tempo. Sim, discordando. Sim. E assim as vozes ecoam alguma coisa. Se você quiser gritar deve falar junto... não haverá um tempo só para ti. Hum... Se houver ninguém te escutará. Eu já havia percebido isso antes... mas não tinha compreendido. Pensava apenas na humanidade enquanto uma idéia e não como agora, isto é, sendo-a. Vamos, bebe e não se aborrece mais. Posso gritar em paz então?