Wednesday, August 30, 2006

Um novo amigo

Hoje decidi, com muito custo, que deveria ser amigo de alguém que esteve presente nestes meses quase todo o tempo, ou melhor quase todas as manhãs. Como de costume vou me deitar para dormir lá pelas 04h da manhã e permaneço assim, mergulhado em pensamentos, até às 05h ou mais... E acontece que antes mesmo de estalarem os sinos da igreja aqui perto de casa, esse meu novo amigo se põe a cantar da forma mais hermética possível ou, como ouço, sem o menor ritmo e melodia... mas como canta tão freneticamente eu acabo por achar que esses sons desconexos devem ter algum sentido, nem que seja só para ele. Escuto-o sempre com muita atenção, pois quero entendê-lo da melhor maneira, mas... no final, só consigo escutar a bagunça que ele faz no meu dia. É impossível tentar reproduzir essa sua música já que, tanto eu como ele, não temos o menor conhecimento sobre harmonia... Talvez lhe falte uma língua... ou talvez me faltem alguns olhos-pregados. No entanto, nos tornamos bons amigos... e, como toda relação, há que se ter nomes e endereços - o meu ele já conhece, e o dele, ora, a minha própria janela. Como ele não sabe fazer outra coisa além de cantar compulsivamente; para mim que não a entende e para ele que não consegue seguir num só ritmo, apelidei-o, não sem intenção, de Pascual! Por causa do Hermeto mesmo... poderia ter-lhe dado o nome de Panela-de-Pressão... mas isso só iria piorar as nossas conversas matinais... E Pascual não é mal... Bom, o meu nome... o nome dessa pessoa que só sabe inventar e esquecer... não poderia ser outro: Insônia. Hoje pude conversar bastante com ele... como não pude dormir um minuto sequer... e seus companheiros da manhã chegaram atrasados... tivemos tempo de sobra para botar os assuntos em dia. Mas agora eu tenho que ir estudar... e ele deve ir provavelmente caçar alguma minhoca por aí ou duelar com as pombas por algumas migalhas... Quanta coincidência!

Sunday, August 27, 2006

Um aviãozinho


Era um dia muito qualquer... como eram os meus dias naquele colégio. Vivi boa parte da minha infância mudando de lugares, cidades, escolas... e talvez por isso mesmo nunca me acostumei com o fato de ser apegado a algum lugar ou a alguma pessoa... nem sequer consigo me lembrar o nome das pessoas com quem convivia, se é que convivia, pois ficava tanto tempo absorto nas minhas criancices que era impossível alguem me chamar a atenção - como disse F. Pessoa: Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre... - obviamente era uma escola careta, mas isso pouco justifica o meu autismo... que só pode ser autismo... Acontece que nessas minhas viagens só tinha lugar para uma pessoa... e essa era justamente eu. Naquele ano, na minha terceira série... eu nunca me dei conta de que estava estudando... guardava todas as minhas lições de casa (as mil e umas) embaixo do meu colchão... heheh azar daqueles que um dia o levantaram, e não fui eu! Só fui perceber uma certa importância naquilo quando só eu da sala começava a fazer provas 'especiais' e em horário de aula comum... humilhado mas esquecido. Desencanava, nunca tentei entender o porquê daquilo, apenas fazia e fazia, cada vez mais - nem sei como passei de ano... nem sabia o que era isso. Mas hoje me lembrei de algo muito estranho... algo que ainda acontece... e muito. Em meio aquele mundo de alunos e professoras... eram poucas, mas terríveis... em meio aquela aventura mental eu recebi um convite para ir a uma festinha... era uma festinha de uma menina da minha sala... e, como qualquer pessoa da minha sala, eu não a conhecia... era mais alguém fora do meu aviãozinho... Sentado lá trás, no fundo daquela sala que parecia enorme e impessoal... eu brincava com os meus botões... imaginava zilhões de coisas que nunca me lembrava e nunca me prendia, pois se um dia você para imaginar coisas e se atem a uma só, você fica... fica! e eu nunca consegui ficar... parado... Mas acotece que isso também tem seu preço. Naquele dia eu experimentei a primeira insensatez da minha vida. Estava, como de costume, ausente de todos, mas preso na minhas idéias... não sei porque, se é que precisa ter um porquê, resolvi fazer um aviãozinho de papel... e instantâneamente comecei a fazê-lo... depois de pronto já não havia nada mais a fazer senão lançá-lo e com muita força para ver aquela minha obra prima... Lancei-o fortemente para cima... devia estar começando a aula, pois não pude resgatá-lo após seu voo maravilhoso... ou simplesmente me esqueci dele. Sentei na carteira... assisti as minhas imaginações passarem pela voz da professora - acho que se chamava Úrsula; não sabia o que significava... mas sempre a vi como o feminino de urso. Depois da aula, porém, umas quatro meninas, mais altas do que eu certamente, vieram até mim e começaram a falar compulsivamente... óbvio que não entendia nada... mas ouvindo todas se referindo de um nome... e ora apontando para uma menina que chorava no canto da sala, bem perto da onde ficam os professores, soube o que se passara... mas as meninas insistiam naquela bagunça de palavras e me perguntavam: Por quê você fez aquilo? Por quê jogou fora o convite dela? Percebi então que tinha feito do convite o meu maravilhoso aviãozinho... e que ele foi jusamente pousar na menina. Não vi se a golpeou... mas deve ter doído... pois acho - hehe ainda só acho - que ela gostava de mim... e que a festa dela significava uma certa promessa de felicidade... Desligado do mundo eu fiz um aviãozinho, brinquei com os sentimentos dela... lancei-o para o ar e de volta para o seu coração... Não fiz muito para me desculpar... não me sentia culpado... nem fui a festa... nem lembro do que aconteceu nos outros dias seguintes... apenas pedi desculpa na hora para as amigas... desculpas que na verdade eram para dispersá-las. Não podia ter feito diferente... e acho que se acontecesse novamente eu faria de novo um avião... Acho que preciso de um ponta-pé dolorido, assim como o voo do meu avião, para me dar conta do que se passa em minha volta... para me fazer perceber e saber quem gosta de mim e quem não... É, mesmo sendo ingênuo e inocente somos responsáveis pelos sentimentos dos outros... Talvez meu aviãozinho ainda esteja voando por aí... espero que ninguém se sinta magoado caso ele caia sobre ti... Seja acertando ou errando, o fato é que eu sinto falta... seja de ti seja dele...

Sunday, August 20, 2006

De uma mudança

É engraçado, mas já pararam para pensar que a palavra mudança parece estar no gerundio? Pois bem, hoje desejo tentar uma nova história... já cansei de escrever demasiadamente... faz poucos meses que aqui escrevo... obviamente sem compromisso, apenas por mera distração e falta de sono... eu quero agora apenas editar imagens... editar, é claro, com palavras, já que de imagens eu realmente pouco entendo.
Bom, aqui vai um exemplo da precisão que quero... eis: Perfect Lovers - Felix Gonsalez-Torres

Wednesday, August 16, 2006

Das coisas estranhas

- Sempre se quer alcançar aquele 'porre' romântico, vertiginoso e cheio de emoções... aquela profundidade de um ser atormentado e convicto... no entanto, sempre quando bebemos ou caímos na desgraça alheia ou caminhamos sozinhos pela manhã afora, seja por tristeza e solidão, seja por completa alegria... mas nunca alcançamos tal proveitosa bebedeira, mas também nunca deixamos de acreditar nela...
- Sempre temos o desejo de escrever ou ler algo que nos liberte, que nos liberte das letras coloridas de preto... mas sempre quando o tentamos com veemência conseguimos apenas a sensação de tempo perdido...
- Sempre queremos encontrar e descobrir algo novo e só nosso... queremos ser os primeiros e os últimos... queremos algo que nos dê, só para nós, um sentido, uma vida, um amor... mas ao encontrá-lo, mesmo que seja inédito, nos damos conta de que ou é algo inautido e inexprimível ou simplesmente por sermos nós seus descobridores já não se é novo, pois sempre caminha e nos acompanha alguém que não é nós mesmos... e é sempre este alguém que reclama, com razão, os méritos...
- Sempre nos sentimos impulsionado a fazer algo difícil e corojoso... mas na beira de fazê-lo ou esquecemos o que exatamente aquele ato significa, ou já não o vemos como algo para posteriormente nos vangloriar ou simplesmente dizemos que havia algo de sórdido e inútil naquela ação...
- Sempre achamos que nada é para sempre... apenas nossa maneira de pensar...
- Sempre detesto o que me dizem que eu disse...
- Algo mais?

Tuesday, August 01, 2006

Irgendwie, irgendwo, irgendwann

Um cigarro gelado do dia cinza e frio, desses que só vemos em são paulo. Existem coisas pelas quais desejo sempre estar vivo para poder defrutar e novamente descobrir o que sou... Neste fim de semana pude ver de camarote a frente fria chegar... o dia amanhacer terrívelmente frio e pálido como nossa pele quando não dormimos. Na área de serviço do apartamento vi chegar o vento cortante, vi chegar a neblina de diamantes... eu pude ver a cidade... eu pude ver, sim, aquela sua pequenina parte... sendo descoberta pela luz. Quase nu, de pé e com o peito exposto para o vento congelante eu fumava meu cigarro cinza... era incrível... era o momento em que sentimos, de uma só vez, o sentido de qualquer estado, de qualquer lugar, de qualquer dia. Que espetáculo as vezes perdemos enquanto dormimos! Hoje... já nem sei direito o que aconteceu... hoje acordei para nada... acho que teria tido um dia melhor se, ao levantar da cama, eu corresse diretamente para contra a parede e enfiasse ali minha cabeça. É, é assim no mais das vezes.