Um aviãozinho

Era um dia muito qualquer... como eram os meus dias naquele colégio. Vivi boa parte da minha infância mudando de lugares, cidades, escolas... e talvez por isso mesmo nunca me acostumei com o fato de ser apegado a algum lugar ou a alguma pessoa... nem sequer consigo me lembrar o nome das pessoas com quem convivia, se é que convivia, pois ficava tanto tempo absorto nas minhas criancices que era impossível alguem me chamar a atenção - como disse F. Pessoa: Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre... - obviamente era uma escola careta, mas isso pouco justifica o meu autismo... que só pode ser autismo... Acontece que nessas minhas viagens só tinha lugar para uma pessoa... e essa era justamente eu. Naquele ano, na minha terceira série... eu nunca me dei conta de que estava estudando... guardava todas as minhas lições de casa (as mil e umas) embaixo do meu colchão... heheh azar daqueles que um dia o levantaram, e não fui eu! Só fui perceber uma certa importância naquilo quando só eu da sala começava a fazer provas 'especiais' e em horário de aula comum... humilhado mas esquecido. Desencanava, nunca tentei entender o porquê daquilo, apenas fazia e fazia, cada vez mais - nem sei como passei de ano... nem sabia o que era isso. Mas hoje me lembrei de algo muito estranho... algo que ainda acontece... e muito. Em meio aquele mundo de alunos e professoras... eram poucas, mas terríveis... em meio aquela aventura mental eu recebi um convite para ir a uma festinha... era uma festinha de uma menina da minha sala... e, como qualquer pessoa da minha sala, eu não a conhecia... era mais alguém fora do meu aviãozinho... Sentado lá trás, no fundo daquela sala que parecia enorme e impessoal... eu brincava com os meus botões... imaginava zilhões de coisas que nunca me lembrava e nunca me prendia, pois se um dia você para imaginar coisas e se atem a uma só, você fica... fica! e eu nunca consegui ficar... parado... Mas acotece que isso também tem seu preço. Naquele dia eu experimentei a primeira insensatez da minha vida. Estava, como de costume, ausente de todos, mas preso na minhas idéias... não sei porque, se é que precisa ter um porquê, resolvi fazer um aviãozinho de papel... e instantâneamente comecei a fazê-lo... depois de pronto já não havia nada mais a fazer senão lançá-lo e com muita força para ver aquela minha obra prima... Lancei-o fortemente para cima... devia estar começando a aula, pois não pude resgatá-lo após seu voo maravilhoso... ou simplesmente me esqueci dele. Sentei na carteira... assisti as minhas imaginações passarem pela voz da professora - acho que se chamava Úrsula; não sabia o que significava... mas sempre a vi como o feminino de urso. Depois da aula, porém, umas quatro meninas, mais altas do que eu certamente, vieram até mim e começaram a falar compulsivamente... óbvio que não entendia nada... mas ouvindo todas se referindo de um nome... e ora apontando para uma menina que chorava no canto da sala, bem perto da onde ficam os professores, soube o que se passara... mas as meninas insistiam naquela bagunça de palavras e me perguntavam: Por quê você fez aquilo? Por quê jogou fora o convite dela? Percebi então que tinha feito do convite o meu maravilhoso aviãozinho... e que ele foi jusamente pousar na menina. Não vi se a golpeou... mas deve ter doído... pois acho - hehe ainda só acho - que ela gostava de mim... e que a festa dela significava uma certa promessa de felicidade... Desligado do mundo eu fiz um aviãozinho, brinquei com os sentimentos dela... lancei-o para o ar e de volta para o seu coração... Não fiz muito para me desculpar... não me sentia culpado... nem fui a festa... nem lembro do que aconteceu nos outros dias seguintes... apenas pedi desculpa na hora para as amigas... desculpas que na verdade eram para dispersá-las. Não podia ter feito diferente... e acho que se acontecesse novamente eu faria de novo um avião... Acho que preciso de um ponta-pé dolorido, assim como o voo do meu avião, para me dar conta do que se passa em minha volta... para me fazer perceber e saber quem gosta de mim e quem não... É, mesmo sendo ingênuo e inocente somos responsáveis pelos sentimentos dos outros... Talvez meu aviãozinho ainda esteja voando por aí... espero que ninguém se sinta magoado caso ele caia sobre ti... Seja acertando ou errando, o fato é que eu sinto falta... seja de ti seja dele...


1 Comments:
Siento ecos de mí en tí.
Gracias, aunque no sepas bien porqué.
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