Saturday, April 29, 2006

Sigkope

Estou tendo uma síncope... seja lá o que isso quer dizer, pois hoje, sexta-feira... e agora nesta madrugada, parece-me que tudo trasncorreu tranquilamente, no entanto, minha cabeça está perdida em algum canto desta casa... ou mesmo na rua... pois não lembro do que aconteceu até este momento em que escrevo - Onde foi parar a tarde gostosa, com seu frio, com a imensidão azul? Onde foi parar tudo o que não consigo lembrar? É precipitdo se perguntar; estou ficado louco? Mas meus olhos não se abrem como de costume... o cheiro dessa carne, desse corpo em que me encaixo, não é mais o mesmo... mudou repentinamente e não consigo recordar o dia, a hora, o segundo desta mudança tão estranha. Será um derrame? Será o resultado de ter lido tão rapidamente um livro? Um livro do Julio Verne cuja realidade parece desdobrar-se duma imaginação... que coisa... tudo parece me faltar... que sensação mais estranha. Sei que saí de casa para comprar cigarro... mas como voltei? Como perdi o tempo? Meu desejo é de escrever ad ininitum... para, agora me recordo brevemente, fazer valer a primeira verdade de Descartes... cogito ergum sum... era assim? Que sensação estranha essa que estou passando! ... Algum derrame? ... acabei de ver que repito idéias... já falei em darrame. Estarei preso num tempo pré-criação? Criação? Que coisas estranhas para se pensar... mas... será que este livro me fez desmaiar e continuo em seus devaneios? Ahh... mas é tudo tão real... tão estranho. É uma síncope! Amanhã tudo voltará ao normal... mas e quanto agora? Quantas palavras giram! Aliás, por que escrevo e, ainda, por que precisamente num blog? Quantos erros de ortografia. Minha cabeça estancou? Que foi isso... o que é? Tentei ler algum livro para me distrair; a Montanha mágica... mas pareceu-me que já havia lido... algum... algum... algum... algum... minha cabeça parou. Nunca li este livro, mas que coisa!? Por quê isso agora? Ahhhhhhhhh... o que fazer quando sua cabeça para? Que leis seguir? Que raciocínios se prender... como posso voltar a me prender? Nada está se ligando... Já sei! Meus óculos! ... nada. Um dicionário dada é a solução! Abramos... e a primeira palavra é... mentecapto... hahah. Que vulgaridade! E se disser que não minto... Foi assim mesmo... mas... Vejamos novamente! Lisina... lise... lysis é o que aparece... o que me falta... o que sobra. Ahhh... nem estou bêbado... mas Lírio-do-Vale? Humm... por que o dicionário me aponta o livro gasto? Devo ler Balzac? En sério? Que coisa... este livro... que outrora pertenceu ao Themistocles Alvim de Lima em carimbo e em 1949... que fora comprado a 3 reais por mim em 10.02.05... diz em suas primeiras linhas: Amanhã saberei se me iludi amando-te.

Friday, April 28, 2006

Ver a escuridao

"Naquele momento, a luz da lanterna diminuiu gradualmente até apagar-se por completo. A mecha ardera até o fim. A escuridão voltou a ser absoluta. Não era o caso de pensar em dissipar as trévas impenetráveis. Restava ainda uma tocha, mas não consiguiríamos mantê-la acesa. Então, como uma criança, fechei os olhos para não ver toda aquela escuridão"
Julio Verne

Sabe, pode parecer pequena a afirmação... "Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar"... mas acredito estar seguro de que não só não é mero romanticismos como também não é mera afecção da alma, mas ao contrário... esconde grandes questões que devemos solapar. Questões que devemos acolher com a gravidade de uma criança e com a argúcia de um adulto. No entanto, ainda sou incapaz enxergar a linha contínua desse horizonte... mas um dia meus pés serão capazes... senão... fecharei meus olhos para não ver tamanha escuridão.

Wednesday, April 26, 2006

As vezes me pergunto... nem como pôde ou como foi... mas por onde anda os poetas de hoje que, assim como outrora, cantaram suas paixões? Por quê não mais os vejo por ai? Por quê não mais se misturam entre os transeuntes... ou se perdem no leito vago de um quarto frio? Não é surpresa estas questões românticas, mas ainda assim... Onde?

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós - e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela....

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando....
Cheio de amôres! e dormir solteiro!

Álvares de Azevedo (1831-52)

Saturday, April 22, 2006

palavra de hoje: serra-eletrica

Eu gostaria de dizer uma coisa; estou cansado de falar.
Já são às 5:23 am e ainda não consegui dormir... sei que se esperar mais algumas horinhas conseguirei, porém corro o risco de ver o dia nascer, com sua luz terrivelmente azul, aquele azul maravilhoso, cheio de energia... nos primeiro minutos do amanhecer... e isso me preocupa, pois este azul nublado, azul que me alegra e deprime, me fará ficar acordado... ficar acordado até quando os seus amarelos-fogo chegarem, isto é, até quando soarem as 12h na fronte de um pobre cansado... Com este medo decidi, como uma criança que morde a língua para não sentir seu joelho machucado... tomar um dramin. Espero calmamente seu efeito... espero... mãos lentas, olhos pesados... tudo vai acontecento em igual medida até... Puff... e Trimmmm. Passou... mais uma noite mal dormida, mais um dia triste. (ps. já soam às 5h30, nos sinos de uma igreja perto de casa). Estou cansado de falar... Se é para cortar, destruir, dilacerar, ruir tudo num som agudo... que seja ao som de uma serra-elétrica, pois essa voz rouca não mais pode...

Thursday, April 20, 2006

curvas do rio...

Estava para fazer uma foto-novela de um quotidiano, mas quando fui selecionar as fotos me vi acolhido por uma enorme surpresa: cama. Não sei bem por quê nestes dias, meses, talvez anos, tenho tido uma enorme afinidade, não sem perturbação, com camas; as minhas certamente. É claro que só tenho uma, no entanto, sempre que a olho, que a toco, que me deito... diversas perguntas e vontades surgem insperadamente. Por quê uma cama pode suportar tantas coisas? Sono, sonhos, sexo, solidão, sangue, suor... são tantas as camas e tantas as sensações que não sei definir o que é uma cama e por quê tantos 'ss' sobre ela. Um dicionário ajudaria, mas só encontrei, por cama, "leito onde se dorme" e "fig. criar uma situação difícil a alguém". Leito? Rio... também, até cama de rio existe... e 'acamar'; ficar doente de cama... Pois bem, deixemos nossas camas. Deite-as de lado... Não mais posso com elas. Eu quero agora apenas um chão, frio e duro. Quero apenas sossegar, num certo e estável lugar...

Monday, April 17, 2006

What thou seest in me is a body exhausted by the labours of the mind. I have founded in Dame Nature not indeed an unkind, but a very coy mistress. Watchful nights, anxious days, slender meals, and endless labours must be the lot of all who pursue her, through her labytinths and meanders.
My first vital air I drew in this island but my complexion is become adust, and my body arid, by visiting lands - as the Poet has it - 'alio sub sole calentes'. Alexander Pope, 1741.

Sunday, April 16, 2006

So

O barulho de um cd que se acaba... só ele... só eu.

Saturday, April 15, 2006

The Adventures of Guille and Belinda and the Enigmatic Meaning of Their Dreams






Não sei se é saudade ou apenas sonho... pois continuo pensando que minha vida, ao logo desses anos, tem deixado partes de si no tempo, partes, essas, que acabaram se estabelecendo, acabaram virando cidades com seus habitantes imaginários... com seus fantasmas solitários. Não sei se são símbolos de um passado feliz e sóbrio ou apenas vidas que ainda não viveram o que tinha de viver... Parece-me, no entanto, que estes fantasmas, que ora os quero e sinto suas saudades e ora os tenho por puras invenções, estão a me dizer: Por que ainda não conseguiste viver? Minha mente gira e cambaleia em torno dessas questões... Será mesmo que já vivi ou que vivi sonhando acordado? Será que sou eu meu próprio fantasma? Todas as minhas caminhadas, todas as bocas beijadas, as peles queimadas ao sol, os lápis perdidos em mochilas velhas, todas as idas e vindas pelas ruas dessa cidade que se chama São Paulo... não passa de um mero sonho? Uma ponte... um rio. Quem é que está deste lado e quem é que está do outro? A pergunta não é mais por quê ou o quê, mas por quem... Uma ponte e um rio que se confunde numa só pessoa; todos os meus sonhos, todas minhas vivências... alguns dizem que sonhar e fantasiar coisas impede-nos de viver realmente, mas por quem sonhamos se não é por nós e para nós mesmos?! Por que não consegui viver? Talvez por que não pude ainda perceber que em meu sonho há muita vida, há muitos fantasmas desejando um corpo. Creio que quando sentimos saudades... não sentimos por nos faltar algo que outrora tínhamos, mas sim sentimos saudades, saudade de nós mesmo; de nós que sonhávamos e vivíamos... que sonhávamos de acordo com o que vivíamos e que vivíamos de acordo com o que sonhávamos.

Saturday, April 08, 2006

todos os dias

Todos os dias eu sinto falta de alguma coisa; uma chave perdida, uma figurinha importante, um papel com cheiro de lembrança, um cílio da sorte, uma caixinha de música, uma nova descoberta, um cisco que incomoda, um livro de 1984. Todos os dias sentimos muita falta, mas todos os dias descobrimos algo; algo que ainda vai nos faltar... mas que, neste dia da descoberta, nos preenche como nunca.
O que eu descobri hoje? - soube por que todas as floriculturas, a noite, acendem seus neons de cor vermelha... vermelho=oposto complementar do verde... as plantas que não "absorvem" o verde, por isso são verdes... portanto "absorvem" mais a luz vermelha. E eu que sempre pensei que era puro mal gosto!

Wednesday, April 05, 2006

Despertador do sono

Não sei como, nem por que... mas quando meu despertador toca eu sinto um sono incrível, amável e macio. Tão suave é, que acabo embalando no sono e, num esquecimento dos mais gratificantes, me deixo apagar, deixo toda minha cabeça extinguir-se em sua solidão.

Monday, April 03, 2006

Na sexta-feira... eu, que tinha passado a noite em claro estudando e escrevendo..., saí de casa para entregar aquele tão inseguro trabalho. Estava alegre e preocupado... alegre por ter terminado um árduo trabalho e, preocupado, pois as pilhas estavam acabando; tanto as minhas quanto as de meu discman... Já havia juntado os meus trocados, que aliás acaba de subir pra 5 reais e 20 centávos..., e já vislumbrava a banca de jornal esperando minha ansiedade... Quando, um enorme barulho! Bum! e silêncio, silêncio... meu companheiro de viagens havia partido! Partiu-se em dois pedaços... meu discman saltou assustado de minha mochila e caiu no chão... se matou! Que tristeza... meu segundo discman em toda a minha vida havia me rejeitado... tudo por descuido, por ter deixado o bolsa da mochila aberto... Enfim... estou sem música... e com o bolero de Ravel pela metade... Quanta tristeza

Do que queremos...

Acabei de ler uma coisa que me deixou completamente alegre... Uma dessas coincidências que ninguém sabe explicar, ou melhor, que não queremos explicar, pois já sabemos o sentido exato e não queremos nenhum cérebro entortando nossas fantasias. Não vou dizer, é claro, o que é que eu li e o que significou para mim. Porém deixo o recado: amemos o impossível, por mais rídiculo que seja! Amemos os desencontros... pois sempre haverá a possibilidade de haver um daqueles encontros memoráveis... Amemos, pois, a simplicidade... os pequenos olhares, os toques singelos... os afetos que só o silêncio pode nos dar.