Lijla
Eu não sou boba, ninguém colhe legumes no inverno...
Hoje o sol se foi... tranquilo e temeroso a procura de um novo lugar para se iluminar. Talvez tenha ido para Moscow... não sei ao certo. Mas sei que foi de trem sentado na janelinha nublada, se esquentando com as mãos, abraçando os seios, pressionando as bochechas contra os joelhos... tudo muito esprimido de novidade... Ela, olhando ora para os pés ora para a janela, deixava subtamente escapar um sorriso acompanhado de uma voz aveludada, que de dentro de sua cabeça dizia... baixinho e gostoso: vamos... vamos... vamos... E assim, qual o som dos trilhos, a voz foi marchando... e sumindo... Mas, para mim que fica, fica a lembrança de seus sorrisos; aquelas explosões que vem lá do fundo... lá, onde nenhum sol consegue chegar... lá, bem lá onde se remi o amor.
Não sei ao certo como era... não encontrei muita informação sobre... e posso estar muito errado... mas a idéia de que os gregos, ou qualquer que fosse a sociedade, antiga ou nova, erigia um monumento para aqueles que nasciam mortos... para aqueles que não tiveram a chance de fazerem valer seu sangue, seus braços, seus peitos, suas unhas... me faz chorar. E só para eles isso era reservado... não, não era para nenhum outro... é claro que as leis também eram escritas em pedras e expostas em praça, assim como estátuas dos deuses (em alguns casos) e heróis... mas para estes... que talvez sequer tiveram nome e corpo?!
Eu, no fundo, sabia... sabia que um dia os raios do sol iriam me pegar... não há como e nem por que ser mais rápido do que ele.
Sabemos, por nós mesmos, que temos ao menos um gosto, uma mania, um prazer íntimo; seja comer alguma coisa num ambiente específico ou com alguma calda especial, seja ouvir o barulho de um trinco que se abre ou fecha, seja cantarolar com os dedos rente a calça, seja deitar nu na cama, seja dançar escondido no banheiro, seja brincar com as orelhas alheias, seja escrever no corpo, seja estourar bexigas... todos nós gostamos de alguma coisa muito particular... que só nós podemos desfrutar num momento único e fortuito. Qual é o seu?
"Até as quatro horas da manhã, não se faz nada, em geral, e dorme-se a essa hora, e isso é tranquilizador, visto que o grande desejo de um coração inquieto é possuir interminávelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser, quando chegou o tempo da ausência, num sono sem sonhos, um sono que só possa acabar no dia da união"
Você que um dia me quis...
