Friday, March 31, 2006

Um choro

Quero chorar um choro; um choro íntimo e silencioso. Um choro que abraça meus olhos e aquece minha mente. Quero chorar um choro; um choro meu... choro que causei. Um choro sem palavras que faz cintilar os infinitos sentidos da vida. Preciso chorar uma humanidade que, imunda, se fez em mim. Preciso lavar essas caras tristes que perseguem meus olhos. Preciso chorar um choro que quer ficar longe de mim.

Tuesday, March 14, 2006

Uma frase a ser pensada...

"A memória bem treinada é guia mais seguro que gênio e sensibilidade". Será?

Saturday, March 11, 2006

Nao fomos feitos para a mesma estrada

Todo os dias eu levanto da cama, olho a minha volta para confirmar aonde estou, fecho os olhos novamente e os abro para levantar... com o pensamento esquecido de que são simplesmente as 09h da manhã. Entro vagarosamente no chuveiro... reparo na ausencia da minha toalha pendurada na porta, suspiro brevemente e enfio então minha cabeça na água que começa a esquentar. Desvio os olhos das gotas... que me empurram para o dia... que fazem arder meus olhos pesados. Outra vez mergulho na escuridão do banho, pego o sabonete na cegueira total, ou melhor, vendo aquelas luzes fumegantes e sempre em movimento de quando fechamos os olhos com força. Fico assim por alguns mundos... acordo. Já é dia! Vamos então. Saio pingando pelo corredor e vejo que minha toalha não está também no quarto... me enxugo com as roupas sujas de ontem e deito... deito novamente na cama quente e confortável. Tento dormir, tento esquecer de que tenho que 'viver'... mas não consigo. Então levanto nu e fresco como o sol que começa a vibrar na minha janela ainda fechada. Me visto todo, todo rápido sem saber como está o dia lá fora... Sempre me troco antes de sair, pois nunca o dia nasce conforme meu gosto. Sigo caminhando para a cozinha... pego o bule de café e encho d'água... coloco duas colheres de pó de café e pronto: ao fogo. Espero sentando o barulhinho do bule que treme por mim... espero ainda mais um pouco... como que se esperasse a força daquele vapor gostoso para poder me levantar da cadeira. Apago o fogão e me sirvo... duas colheres de açucar e duas assopradas fortes... um gole acanhado e já estou vivo. Percorro o resto da casa vazia... dou um bom dia ao meu gato saltitante... afago-o com uma mão de chumbo e recosto na cadera de meu quarto... Mais um dia... mais um dia alguem fala dentro de mim. Mas que dia? O que tenho hoje? Lembro de algo, mas não me dou conta. Coloco um caderno e um livro na mochila, confiro meu dinheiro no bolso da calça de ontem, abro a janela e vejo o dia... se corre muito rápido, se é um dia que logo vai parar, se faltam alguns segundos para explodir, se em breve vai acabar bem... escolho assim... conforme esse saber íntimo, os cds que escutarei ao longo das viagens de ônibus, metros, das caminhadas e das possíveis caronas ou casa alheas... Normalmente são sempre os mesmos cds... um de rock pesado, com sua bateria incansável - pode ser um jazz de miles davis também - um de música clássica... as vezes uma 9 do beethoven, um titan do mahler, um locatelli... um cd mais calmo, porém pertubardor, de um johny cash... de uma cat power... e assim vai.
Já estendido... me troco... visto meus fones de ouvido, pego minhas chaves e saio... saio já pensando no que não vou de jeito nenhum fazer. Ando, ando, ando, ando na pressa de sombra... pego meu ônibus e vou... se tiver sorte poderá ir na janela sentadinho calado e confiante... senão... um bom dia pra você.

Tuesday, March 07, 2006

Gordon Matta Clark

Da voz

Todos os dias nos deparamos com vozes e mais vozes... ora, não seria tão difícil aceitar todas estas palavras se não tivessemos nós uma voz própria. Pois bem, "eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma transparência calma, profunda, indefinidamente aberta, em que os outros respondessem a minha expectativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria snão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz". Mas... infelizmente não somos um espelho, não só guardamos as coisas refletidas, como distorcemos, aparamos e criamos mais e mais vozes. Um grande ardil; lembrar e ser lembrado... ter sido alegre e não conseguir ser de novo.