Um banco
Passar cinco horas num mesmo banco, sentado como que esperando nada acontecer... Olhar distraídamente para o lado das pessoas que te olham e exclamam: Ainda está aí... desde aquela hora?! - Olhar para aquele infinito do pensamento e se perguntar: mas por quê um juízo estético é e deve ser um juízo reflexivo? - Sim, desinteressado... mas não poderia ser por isso mesmo objetivo? Se esparramar em pensamentos... conformidade a fins... conformidade a leis... arte e natureza. Um café cinzento acompanha minha mão... a fumaça aos olhos. O freunde, nicht diese Tone! Sentam-se pessoas em meu banco... conversam sobre tudo - sobre as bundas chatas, as moles, as caídas... conversamos sobre nossos passados e em nada concordamos. Olhamos para as bundas que passam corridas e damos meia volta para olhar a parede com suas manchas... tratávamos de tintas e maneiras de pintar as paredes... esquecíamos de novo qual era o assunto e uma ída ao banheiro. Um novo cigarro para um velho pulmão, e algumas palavras sobre saúde... mas nada conclusivo. Uma reclamação para quebrar o sol ardente e de novo conversavámos sobre o fígado. Uma porta aberta espreitáva-nos, dizia para nos afastar, pois era sua vez de passar... Uma boca antiga agora me falava: Alle Menschen werden Bruder... - "Não sei que aula vou dar no semestre que vem... talvez de Nietzsche", ou seja, de nada... Minha bunda doía... o banco vasado a expremia. Nenhuma resposta do celular. Um gato malhado dizia a si mesmo quando... "eu quero atravessar essa multidão, mas estou..." e no instante em que disse - morrendo de medo - retornou, com o mesmo assombro com que começou a atravessar as pessoas, para o seu lugarzinho tranquilo de solidão. É estranho, mas foi tanta encenação para aquela atravessia que tal ato pareceu-me natural. Às vezes sinto o mesmo quando tenho que encarar certas pessoas... vou correndo para meu fim... dizendo a mim mesmo - é, eu sei que você nada representa para mim, mas mesmo assim eu me... - e me calo diante dela. Seja por medo, seja por desprezo... eu nada sou ali, mas em meu banco eu posso. Posso dormir e acordar quando quero, posso encerrar o dia numa frase, posso viver apenas, sem mendigar às pombas uma companhia, sem pedir um instante para minhas palavras. Ali eu posso... dizer a mim: a ti e a ninguém mais.


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