Friday, June 01, 2007

"Mais uma vez, ó sombra tão carpida,
Ousas à luz do dia aparecer
E, ao me encontrar na várzea florescida,
Não estranhas em nada ali me ver.
É como se vivesses, tempos antes,
Num campo que o sereno refrescava
Quando, ao findar das lutas estafantes,
Ainda um raio de sol nos deleitava.
Cá fiquei eu; e tu, neste circuito,
Foste na frente - e não perdeste muito.

Parece a vida humana andar à sorte:
Se o dia é encantador, a noite é forte!
Plantados no prazer do paraíso,
Mal gozamos o sol alto e preciso
E um impulso confuso, já de enleio,
Bate-se ora com a gente, ora com o meio.
Dois jamais se completam, pois se for
Por fora escuro, dentro é esplendor,
Um turvo olhar o brilho externo tapa,
A ventura está perto - e assim escapa."
W. Goethe

Parece que já haviamos escolhido, como num pacto metafísico, em nunca dizer as tristezas e as alegrias em sua pura substância, com a precisão de um cirurgião. Talvez não há outra maneira de cantar as belezas e os sofrimentos. Giramos apenas. Aqueles que tentam, ou caem em desgraça e no grotesco ou se tornam, aos nossos olhos, pesadelos eternos. Cito aqui Goethe para não correr esse risco...

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