Dromin
Eu dormi com dramin, mas isso não vem ao caso. Acontece que ontem andei por vários lugares conhecidos. Centro de tudo e tudo pararecia mudado. Cadê minhas pernas que andavam ligeiras ao som do brega? Cadê minha barriga que se enchia de mate-com-leite? Minha boca de abacatada da rua nova barão... Cadê meu rosto nulo? Cadê os velhos desencontros... placas vazias! História contada... agora em placas e avisos. Centro... desertos de moradores. É verdade, é tudo verdade. Um velho se isola para dar lugar ao novo que... chega! Sim, viva aos projetos urbanos, sim, viva às boas novas! O centro... tão íntimo e tão velho. Cadê aquele velho homem do saco vazio, a mulher do pescoço e do sorriso flutuante? Cadê a história do homem e seu cachorro bípede? Os peruanos viraram chilenos, paraguaios... bolivianos nativos do centro. O centro, cidade e cenário de filme não terminado, cadeira vazia de um povo sem almoço. República dos bancos, São Bento da... ops dos cafés. Não sei... não sei... não sei. Não, não sei! Cadê? Fui eu quem mudei? O centro está ali... já não posso mais olhá-lo. Deêm boas vindas às reformas, às empreitadas financeiras do bem-estar! Viva Keynes, viva. Ah, mas o que é tornar o centro 'habitável'? Desconfortável... encosto e apoios baratos para uma tragédia urbana. Não, nunca! Ah, mas pelo menos estava lá: meu messias! Na corda bamba balançava... Pregava seus pés na corda que tensionava... para lá e agora para cá. Suaaava na camisa-da-força... era jesus ali na barata e barata estampa. Cabelos grisalhos, assanhados com o zúm zúm zúm, contavam o épico dos papéis-jornal... Acontece que ele já não mais fala, ele diz... não se escuta, se lê... ou no máximo se houve... alguém que pensa ser Jesus... decerto é o da Pentecostal. Acontece que ele não é mais aquele palhaço de Fellini, já não faz o sorriso com o milagre, com o milagre do sorriso, ele chora de pé... descalço ele grita o choro que há muito tempo desistira de ter. Acontece que ele não mais ri, ele não chora... ele diz, ele conta, ele percebe. Pastor tercerizado, ouvinte espetaculizador; uma soma muito curiosa. Já é... já estou cansado... Acontece que andando pelo conhecido espaço de minha alma encontrei apenas um estranho correndo. Acontece que devo todo dia dormir mais... mas um pouco... não consigo dormir.
p(r)onto). s(ocorro). Vocês já viram o moderno faquir? O faquir dos cacos de vidro verde de sangue-de-boi? Como é bom falar isso: cacos de vidro verdes de sangue de boi... Vocês já se perguntaram o que seria de ti se acreditasse num pastor de rua? Hah! pois bem... se eu acreditasse neles não acreditaria na política, na história, na poesia... Mas acaso acredito nisso? É, e você acredita em quê... m?


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