Volteia em torno da fonte
A cambiante libélula,
Por largo tempo alegra o meu olhar;
Ora escura, ora clara
Tal qual o camaleão:
Ora vermelho, ora azul,
Ora azul, ora verde;
Oh, que de bem perto
Percebo agora as tuas cores!
Ela adeja e plana, nunca pousa!
Sim, ei-la pousada agora no prado.
Agarrei-a! Agarrei-a!
Desta vex observo-a de bem perto
E tudo o que vejo é um azul funéreo -
Eis o que te espera, tu, que dissecas teu prazer!
[Goethe]
Estava estudando algumas coisas e me deparei com este poema... num primeiro momento não pude perceber o que de tão assustador se encontra nestes versos... Talvez nem mesmo você o consiga. Tente, tente de mais perto. Reflexione, dobra-te sobre cada letra e veja que, assim como esta libélula, não encontraremos nada a não ser um miúdo e indistinto som... pois olhamos demasiadamente... atentamente. Esquecendo, pois, de olhar para a libélula, para o que imediatamente ela nos remete e nos faz perceber. Se atentarmos para as miudesas, afim de alcançar uma pureza do olhar... alcançamos, na verdade, o desprazer e o vazio... Em nossas vidas aprendemos constantemente a distrinchar, a repartir, separar tudo por tudo... e, qual o mérito de um perito costuramos novamente as partes para daí afirmar: eis a libélula, eis a obra de arte. Que matemática é esta que nos impulsiona a olhar para as obras de arte como se estivessemos fazendo uma autópsia? Quantas pessoas vão aos museus para analisar... se esquecendo de que uma obra de arte não pode ser entendida olhando separadamente os sentimentos e intuiçnoes por ela promovidas, mas, ao contrário, encontrando o fio condutor pela qual a obra nos faz ver seu modo ser, sua unidade interior e a forma como ela domina estas multiplas percepções...


0 Comments:
Post a Comment
<< Home