travesseiro

Ontem quando fui dormir senti meu travesseiro vibrar e mover-se frenéticamente, pra lá e pra cá. Ele, ele conversava, baixinho, comigo. Não sei o que me falava, pois meus ouvidos estavam enterrados em seu corpo, mas via-o que continuava... Ele seguia com seus gemidos, tentando pronunciar alguma coisa. Eu, sem me mexer, calei-me, pois não sabia o que deveria dizer, não sabia o que queria com aquela pequenina palavra. Ouvi-a uma vez... Ouvi-a de novo e de novo. Queria poder dizer-lhe algo, mas ele insistia somente naquela palavra. Abracei-o fortemente na intenção de silenciar aquela sua teimosia; mas não. Ele não deixava de falar-me, como se estivesse em seus últimos dias tentando expor uma verdade urgente, uma verdade que precisava ser dita a qualquer custo. Eu, por outro lado, não conseguia entende-lo e, cada vez mais, ficava irriquieto; pensando no que dizer para ele e para consola-lo. Mas suas palavras pareciam incendiar-me de tal modo que secava, e muito, minha boca... Tentei, tentei de tudo fazê-lo parar, mas toda essas empresas só incitou-o mais a dizer! A dizer: Ninguém.
Ninguém aqui para me ajudar a calar este maldito travesseiro que me recusa, que impede meu sono e não me recebe na noite frágil em que me entrego, em que me entrego profundamente ao sono íntimo e masculino. Com muito custo, chorei... já faziam 2 anos que não chorava, mas por sorte, não pude evitar. Chorei sobre ele, molhei-o com minhas lágrimas tardias. Pareceu que elas o serenaram, acalmaram aquele desespero de um sofredor que deseja acabar com a causa de tudo o que lhe faz infeliz, mesmo que acabar implique acabar com sua vida. Logo após alguns instantes, após um punhado de soluços, ele quietou-se. Ali, todo molhado, encolhendo-se o máximo, ele deixou de dizer... parou em seu sossego e deixou-se perder. Meu choro! Meu remédio! Ontem quando fui dormir meu travesseiro investiu contra mim. Atentou contra o nosso tão estimado e solidário sono. Somos eu e ele, juntos num sono só. Sabemos que somos inseparáreis, sabemos disso com a força de um primeiro amor, pois somos um do outro o primeiro amor... que nunca acaba e que nunca volta a ser um primeiro amor. Hoje, acordado, penso e sinto pena. Pena por não haver mais ninguem para dividir conosco este sofrimento.


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